segunda-feira, 20 de abril de 2009

Toca telefone,toca



Fuçando na internet e passando nos sites que curto ler me deparei com esse texto do jornalista Paulo Rebêlo.Achei super interessante e quero compartilhar com todos vocês que acessam o Madame Excêntrica.E concordo em gênero,número,grau e conteúdo.Que atire o celular no Capibaribe (se estiver na Índia atire no Ganges) quem nunca viveu uma situação desseas na vida e esperou por horas,dias,semanas,meses e até anos a tal ligação do dia seguinte.
Para ler outros texto de Paulo Rebêlo é só acessar: http://www.rebelo.org/hipopocaranga



Paulo Rebêlo // novembro.2001

Estava eu folheando um semanário quando, de repente, leio uma propaganda de uma operadora de cartão de crédito que dizia mais ou menos assim: “perfume tal: 50 reais; vestido novo para a festa: 120 reais; ele ligar no dia seguinte: não tem preço”. Na propaganda, aparece uma mulher de roupão, deitada no sofá, com aquele sorriso que bate na testa, tamanha a satisfação.


Em minha impopular (porém imbatível) sensibilidade e romantismo de botequim da esquina, achei essa apelação um motivo suficiente para comentar sobre a pieguice neofeminista que prega o chavão de que nós, homens, seres humanos de duas cabeças impensantes, não gostamos de ligar no dia seguinte porque somos machistas, cafajestes, vulgares, biltres, infames e outros adjetivos ocasionalmente não muito falsos.O interessante é a celeuma com a qual homens e mulheres criaram em torno da ligação no day after. Aquela velha ladainha: se fulano ligar é porque está interessado. Se fulano não ligar é porque só quis passar uma noite. Acredite: às vezes homem também tem dessas frescuras contemporâneas.

Outro dia li o depoimento de uma colega que resolveu se juntar ao meu protesto anti-neofeminista. Ela nos dá um exemplo ímpar sobre a lengalenga de esperar uma ligação no dia seguinte. Conta o caso de uma sicrana que saiu com o homem dos sonhos (que meigo), mas na hora de ele subir no apartamento dela (sem trocadilhos) para deixá-la na porta, ela não deixou ele entrar. Também sem trocadilhos, por favor.


Rolou aquele amasso básico encostados à porta etc e tal, mas a sicrana não quis que a primeira noite tivesse uma conclusão, digamos assim, mais carnal; ela achou melhor deixar para o segundo encontro. De cabeça baixa, em todos os sentidos, o cara foi embora e no dia seguinte a sicrana se preparou todinha (banho, perfume, orixás etc…) porque de noite, finalmente, ela ia abrir a porteira dela - agora com trocadilhos mesmo.


O fato é que o cara não ligou. Nem no dia seguinte, nem no posterior, nem no outro dia e nem nunca mais. E o celular dele sempre estava fora de área: louvado seja o bina, amém!


Chegamos então a um paradoxo comportamental. Caso a sicrana tivesse aberto a porteira no primeiro encontro e o cara não ligasse no outro dia, ela ia telefonar para todas as amigas dizendo que ele só queria saber daquilo, que era um cafajeste, um aproveitador, um pusilânime e tantos outros adjetivos eventualmente mais ou menos corretos. Isso como se ela também não estivesse a fim.


O cara não ligou e ela ficou sem tirar o atraso. Sem a intenção de explicitar conclusões precipitadas - cada um que abra e que feche a porteira quando bem entender - a história, que já deve ter acontecido com 99,9% das mulheres, serve para ilustrar como o convencionalismo da “ligação no dia seguinte” não é referência alguma a não ser uma pieguice inventada para tentar preencher frustrações contemporâneas.


As mulheres costumam dizer que ligar no dia seguinte é um sinal de respeito, de carinho, de que a noite anterior foi aprazível e interessante. Não há dúvidas de que elas têm razão. No entanto, de acordo com os estudos de campo realizados pela CRECA- Centro Rebelal de Estudos Comportamentais Avançados - o buraco (da questão…) é mais embaixo.



Com o passar dos tempos, uma facção de neofeministas conseguiu gerar uma enorme algazarra em torno da ligação do dia seguinte, conseguiram transformar uma simples ação informal em um verdadeiro atestado de sentimento reconhecido em cartório.



Enfim, criaram um leviatã enorme cheio de ilusões sentimentalistas a ponto de fazer com que nós, seres dupla e irracionalmente encabeçados, simplesmente tenhamos pesadelos só de pensar em ligar no dia seguinte para em seguida receber, via sedex, um atestado de compromisso. Quando não um bilhete com o nome da igreja e do padre para o casamento. Ou seja, às vezes até queremos ligar para marcar a próxima visita na floresta. Só não queremos casar ou atestar compromisso em cartório, não por enquanto.


Como diria aquela antiga propaganda: a decisão é sua; a solução é nossa.


Se você, mulher livre, inteligente e cheia de amor para compartilhar, saiu com aquele cara dos sonhos e ele não ligou no dia seguinte, não venha jogar a culpa na gente. A culpa é daquelas poucas coleguinhas de vocês neofeministas frustradas que, na falta de [escreva o substantivo aqui], resolveram criar um certificado sentimental que é traduzido em um reles telefonema o qual muitas vezes, quando feito, não significa nada mais do que um método eficaz de despache.


Moral da história: se você sair com aquele cara super gente boa (eu inclusive, ok?) e, no fim da noite, você estiver a fim de passear de banana-boat tanto quanto ele de visitar a Amazônia, não pense duas vezes: tome uma atitude!

Pois, se no outro dia ele não ligar, pelo menos você não deixou a noite terminar no zero a zero e vai ter assunto para conversar com as amigas na mesa de bar.

A bronca será se ele pegar no seu pé, ligar o dia inteiro e você não querer atender… aí é quando a porca torcer o rabo, macaco fuma charuto e eu quero ver você continuar dizendo que homem é tudo safado.




http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2001/homens-nao-ligam-no-dia-seguinte/